Há 24 anos que cuido de pessoas.
Ao longo deste percurso como enfermeira, ouvi histórias, acompanhei pessoas e famílias, testemunhei recuperações e despedidas. E foi precisamente nesse caminho que comecei a perceber que a saúde vai muito além dos exames, dos tratamentos ou dos profissionais de saúde.
A saúde começa dentro de cada um de nós.
Iniciei o meu percurso profissional no hospital, passando por vários serviços. Era frequente lidar com a dor, as complicações, o abandono, a doença e a morte. Via tratamentos que resultavam e outros que não produziam os resultados esperados. E, muitas vezes, questionava-me: será que não existe algo mais que possa complementar aquilo que fazemos?
Anos mais tarde, já nos cuidados de saúde primários, continuei a encontrar situações que despertavam as mesmas questões. Pessoas que procuravam ajuda devido a sintomas persistentes, tomavam a medicação prescrita e regressavam semanas depois com as mesmas queixas. Outras cumpriam os tratamentos, tinham uma alimentação equilibrada, faziam caminhadas regularmente e, ainda assim, sentiam que algo não estava bem. Parecia faltar algo, sempre.
Foi no final da pandemia que a vida me trouxe uma resposta (in)esperada. Também eu vivi um burnout.
Procurei ajuda médica e iniciei a medicação prescrita. No entanto, sentia-me cada vez mais distante de mim própria. A apatia aumentava, a sonolência tornava-se constante, faltava-me energia e tinha dificuldade em reconhecer a mulher que via ao espelho.
Foi então que, de forma intuitiva, comecei a procurar aquilo que hoje chamo de “a minha terapia“.
Andar descalça. Apanhar sol. Ir à praia e nadar, independentemente da estação do ano. Caminhar. Permanecer na natureza. Sentir a terra nas mãos. Cavar, plantar e regar. E sobretudo sentir o prazer e a gratidão de colher.
E foi aí que comecei a sentir mudanças reais.
Ao mesmo tempo, procurei respostas para as muitas perguntas que habitavam a minha mente. Aproximei-me mais da espiritualidade e da busca interior. Nem sempre foi um caminho fácil. Houve momentos em que voltava à escuridão, acompanhada pelo cansaço, pela falta de energia e pelas insónias.
Mas, sabia que existia uma luz ao fundo do túnel.
Mais tarde, surgiu a oportunidade de realizar uma formação em Terapia de Renascimento. Através da respiração consciente, comecei a encontrar mais clareza, mais presença e uma compreensão diferente sobre mim mesma e sobre a saúde.
Pouco depois, iniciei uma pós-graduação em Saúde Integrativa.
E foi então que muitas peças começaram finalmente a encaixar-se.
Percebi que grande parte das práticas que me tinham ajudado já eram sustentadas por estudos científicos e utilizadas por profissionais de saúde em diferentes partes do mundo. A evidência existia. Os benefícios eram reais.
Foi também nessa altura que compreendi verdadeiramente o significado da Saúde Integrativa.
Uma abordagem à pessoa de forma integral: corpo, mente, emoções, relações, contexto de vida e dimensão espiritual, e não apenas para os sintomas físicos ou para a doença instalada.
A Saúde Integrativa procura compreender as causas profundas dos desequilíbrios, reconhecendo que muitos dos desafios que enfrentamos na adolescência e vida adulta podem ter origem em experiências tão precoces, como as que ocorreram em momentos como a conceção, gestação, nascimento e até à 1ª infância.
Mais do que tratar sintomas, procura promover consciência, equilíbrio e bem-estar, integrando diferentes estratégias sustentadas pela evidência científica e colocando a pessoa no centro do seu próprio processo de saúde.
Tudo começou a fazer sentido.
Um sentido alinhado com aquilo que o meu coração sempre me transmitia. Porque o coração, para mim, é uma espécie de GPS interior.
Durante muito tempo senti-me inconformada, como uma peça de puzzle que tenta encaixar em vários lugares, mas que nunca encontra verdadeiramente o seu espaço.
Hoje percebo que não era defeito da peça.
Era apenas um sinal de que o lugar onde estava já não correspondia ao caminho que queria seguir.
E quando deixamos de nos encaixar, talvez seja porque chegou o momento de crescer, de mudar e de criar um novo caminho.
Hoje acredito que cuidar da saúde é muito mais do que tratar sintomas. É olhar para a pessoa na sua totalidade, compreender a sua história, respeitar o seu percurso e criar condições para que possa recuperar o equilíbrio que já existe dentro de si.
Com amor,
Elisabete Freitas
Enfermeira | Saúde Integrativa
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A história que mudou a minha forma de cuidar.
24 anos. Este é o tempo que levo a cuidar de pessoas. A ouvi-las e a perceber que a saúde vai muito além dos exame de sangue, dos exames e dos tratamentos que se façam, ou até mesmo, dos profissionais de saúde. A Saúde está dentro de cada um de nós.